23 de janeiro de 2011

O preço de não escutar a natureza


"O cataclisma ambiental, social e humano que se abateu sobre as três cidades serranas do Estado do Rio de Janeiro, Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, na segunda semana de janeiro, com centenas de mortos, destruição de regiões inteiras e um incomensurável sofrimento dos que perderam familiares, casas e todos os haveres tem como causa mais imediata as chuvas torrenciais, próprias do verão, a configuração geofísica das montanhas, com pouca capa de solo sobre o qual cresce exuberante floresta subtropical, assentada sobre imensas rochas lisas que por causa da infiltração das águas e o peso da vegetação provocam frequentemente deslizamentos fatais.

Culpam-se pessoas que ocuparam áreas de risco, incriminam-se políticos corruptos que destribuíram terrenos perigosos a pobres, critica-se o poder público que se mostrou leniente e não fez obras de prevenção, por não serem visíveis e não angariarem votos. Nisso tudo há muita verdade. Mas nisso não reside a causa principal desta tragédia avassaladora.

A causa principal deriva do modo como costumamos tratar a natureza. Ela é generosa para conosco pois nos oferece tudo o que precisamos para viver. Mas nós, em contrapartida, a consideramos como um objeto qualquer, entregue ao nosso bel-prazer, sem nenhum sentido de responsabilidade pela sua preservação nem lhe damos alguma retribuição. Ao contrario, tratamo-la com violência, depredamo-la, arrancando tudo o que podemos dela para nosso benefício. E ainda a transformamos numa imensa lixeira de nossos dejetos.

Pior ainda: nós não conhecemos sua natureza e sua história. Somos analfabetos e ignorantes da história que se realizou nos nossos lugares no percurso de milhares e milhares de anos. Não nos preocupamos em conhecer a flora e a fauna, as montanhas, os rios, as paisagens, as pessoas significativas que ai viveram, artistas, poetas, governantes, sábios e construtores.

Somos, em grande parte, ainda devedores do espírito científico moderno que identifica a realidade com seus aspectos meramente materiais e mecanicistas sem incluir nela, a vida, a consciência e a comunhão íntima com as coisas que os poetas, músicos e artistas nos evocam em suas magníficas obras. O universo e a natureza possuem história. Ela está sendo contada pelas estrelas, pela Terra, pelo afloramento e elevação das montanhas, pelos animais, pelas florestas e pelos rios. Nossa tarefa é saber escutar e interpretar as mensagens que eles nos mandam. Os povos originários sabiam captar cada movimento das nuvens, o sentido dos ventos e sabiam quando vinham ou não trombas dágua. Chico Mendes com quem participei de longas penetrações na floresta amazônica do Acre sabia interpretar cada ruído da selva, ler sinais da passagem de onças nas folhas do chão e, com o ouvido colado ao chão, sabia a direção em que ia a manada de perigosos porcos selvagens. Nós desaprendemos tudo isso. Com o recurso das ciências lemos a história inscrita nas camadas de cada ser. Mas esse conhecimento não entrou nos currículos escolares nem se transformou em cultura geral. Antes, virou técnica para dominar a natureza e acumular.

No caso das cidades serranas: é natural que haja chuvas torrenciais no verão. Sempre podem ocorrer desmoronamentos de encostas. Sabemos que já se instalou o aquecimento global que torna os eventos extremos mais freqüentes e mais densos. Conhecemos os vales profundos e os riachos que correm neles. Mas não escutamos a mensagem que eles nos enviam que é: não construir casas nas encostas; não morar perto do rio e preservar zelosamente a mata ciliar. O rio possui dois leitos: um normal, menor, pelo qual fluem as águas correntes e outro maior que dá vazão às grandes águas das chuvas torrenciais. Nesta parte não se pode construir e morar.

Estamos pagando alto preço pelo nosso descaso e pela dizimação da mata atlântica que equilibrava o regime das chuvas. O que se impõe agora é escutar a natureza e fazer obras preventivas que respeitem o modo de ser de cada encosta, de cada vale e de cada rio.

Só controlamos a natureza na medida em que lhe obedecemos e soubermos escutar suas mensagens e ler seus sinais. Caso contrário teremos que contar com tragédias fatais evitáveis." 

Reblogado do blog Mulher de Asas

8 comments:

maria neusa guadalupe disse...

Obrigada por "reblogar"...a natureza ferida agradece...beijos verdeesperançosos.

Marion disse...

Gosto muito do Leonardo Boff, mas não tinha lido esse texto. Obrigada por disponibilizar!

Vivi... disse...

Querida Regina!!!
Obrigada pela visita, espero que volte sempre!!!
Quanto a tragédia do Rio concordo plenamente com você, e sabemos que a natureza só nos responde de acordo com o tratamento que damos a ela, e infelizmente o homem tem maltratado muito a natureza e agora só lhe resta aguentar a resposta para tanta maldade, pois o que vivenciamos é a crueldade na derrubada das matas, inclusive a mata atlântica e da nossa amazônia, sem falar que hoje se corta árvores nas cidades com a maior simplicidade para se levantar construções, não se pensa um segundo em conservar o pouquinho que nos resta de verde, tudo em prol do famijerado "desenvolvimento"...

É uma pena, mas esta é a nossa realidade!

Te desejo uma linda e abençoada semana!!!

bjs

Vivi

Ana Amélia disse...

Olá ,o que vimos acontecer na região serrana do Rio é assustador... vi na tv um morador dessa região dizendo que não ia sair do imóvel onde mora(O imóvel está condenado) porque essa é a segunda casa dele que é atingida pelas chuvas e, que seria melhor a morte, porque assim estaria livre de tanto sofrimento.Eu fiquei triste de ver a desesperança dele... porém diante de tanta tristeza não podemos negar que falta: respeito com a natureza,educação em relação ao lixo e atuação constante e rígida das autoridades em planejamento.O que preocupa é saber que daqui para frente terrores como o acontecido, seram mais contantes.Bjs.

Ana Maria ( Jeito de Casa ) disse...

oi Regina

Texto perfeito.
Aqui em SC todo ano tem enchentes, é natural, mas a cada vez vão ficando maiores e tudo isso que vemos pelo Brasil e mundo afora....
Nosso ignorância vai deixando seus rastros de destruição....

Fê Dutra disse...

Bela reflexão. Pena que ainda estamos a anos luz da solução, para uma ocupação consciente, do solo urbano.

jeito simples disse...

De tudo que tenho lido a respeito, este texto foi o melhor.
Parabéns pela escolha certa.
um abraço, Norma.

jeito simples disse...

Infelizmente o paraíso não é mais.
Vamos mesmo morar no Rio de Janeiro.
Já sinto muita falta da vida no campo, mas quando a angústia quer me invadir penso na Ingrid Betancourt e então a dor que sinto desaparece imediatamente.
Bjo.

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